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Rock

download Lisboa Menina E Moça - Abilius - Postais Musicais (CD, Album) full album


Label: Not On Label (Abilius Self-Released) - none Format: CD Album Country: Portugal Genre: Folk, World, Country Style: Fado

Until the end of the decade, he released another eleven records. Quadros na parede, alm de fotos e cartazes com imagens de fadistas so praticamente obrigatrios. DAIRE,p. No Brasil casa de fado no seria mole assim!. Em uma esclarecedora passagem de seu famoso texto autobiogrfico acerca de tal trajetria, Album) conta:. Maria, Seu apelido: A maior parte dos estudos acerca do estilo antes do sculo XX, porm, aparece como parte secundria de tratados de retrica ou anlises gramaticais, ou mesmo em estudos literrios.

Silncio, que se vai cantar o fado. Mais para frente ser analisada a participao da falta de rudo no universo do fado, mas por ora importante destacar que, comparativamente a outras expresses musicais regionais com amplitude nacional, tais como o samba, o bolero, o tango, o flamenco, etc.

Como veremos captulos adiante, este ponto parece estar diretamente ligado s normas de recepo das letras de fado. Todas as casas de fado so decoradas de um modo especfico, que, de certa forma, as une e as legitima como tal.

Quadros na parede, alm de fotos e cartazes com imagens de fadistas so praticamente obrigatrios. Alm disso, elementos tpicos das touradas, como capas, partes de trajes, etc. Outrossim, objetos do fado, como guitarras antigas, xales, discos velhos,. Atualmente, em tascas menos sofisticadas, tambm se encontram elementos ligados a times de futebol, como cachecis e camisetas autografadas por jogadores. Fundamentalmente portuguesas, as comidas servidas so sempre tpicas, como o bacalhau, a aorda, o polvo, a alheira, etc.

A bebida o vinho e a cerveja. O servio nas casas de fado acontece intercaladamente com as apresentaes; raramente se misturam. Como se existisse uma ordem clara entre o srio silncio, fado, luz baixa , e o descontrado algazarra, comida, bebida, conversa, luz. Acerca de uma tpica comunho ritualstica entre produtores e receptores do fado, Maria Luisa Guerra escreveu: A guitarra, acompanhada da viola, cria a tonalidade de uma comunho intimista, quase religiosa, entre quem toca e quem ouve.

De fato, a recepo do fado parece exigir de quem dela participa um esforo quase to forte quanto aquele demandado de quem o produz cantores, msicos. A comear pelo silncio, que consiste em um empenho contnuo por parte do pblico que levado compulsoriamente para dentro do ritual. Como disseram Antnio F. Guerreiro, em estudo sobe o fado em Alfama:. O silncio, porm, pode e deve ser rompido em alguns episdios apenas conhecidos pelos iniciados.

Aos espectadores permitido entrar em dois momentos especficos. O primeiro nos estribilhos de alguns fados especficos que permitem e at obrigam que todos cantem juntos, como o caso dos fados Canto o Fado, Fado Pechincha, Passeio Fadista, e, talvez o mais emblemtico, Em Cinco Minutos. O iniciante ao ritual de fado sempre fica admirado ao vivenciar este surpreendente canto comunitrio, este coral de comuns, que parece um segredo, e s pode surgir de vez em quando.

Segundamente, o pblico tambm pode se expressar dando gritos de incentivo ao fadista, logo aps uma apresentao, gritando frases. A ausncia de dana tambm um dos elementos caractersticos fundamentais do fado, j que se comparado com o samba, o forr, o tango, o flamenco, a tarantela, etc.

Todo turista que entra numa casa de fado, naturalmente, espera ver o tpico: E pagam para isso, o que ajuda na manuteno dos elementos ritualsticos.

Essa faceta turstica que o fado vem ganhando ao longo das ltimas dcadas tambm tem outro efeito: So poucos, normalmente os mesmos indivduos que frequentam touradas e gostam de manter a tradio. Neste aspecto, parece que o fado muito mais sagrado do que, por exemplo, o samba.

H lugares templos especficos para se cantar e ouvir, deve-se fazer silncio, h uma ordem fixa e vigiada de acontecimentos. Diferentemente do samba, fado no uma festa, no tem caractersticas de folia, no se vai ao fado para paquerar, etc. O fado est mais para o teatro do que para a festa. Ainda com relao ao forte apelo turstico do fado, em foi inaugurado, no bairro de Alfama, o Museu do Fado, criado pelo rgo municipal EGEAC - Empresa de Gesto de Equipamentos e Animao Cultural, que rene e conserva os esplios de centenas de intrpretes, autores, compositores, msicos, construtores de instrumentos, estudiosos e investigadores e profissionais do fado.

Portanto, o fado visto hoje por toda sociedade portuguesa no apenas como uma msica, mas principalmente como um patrimnio cultural e. Como ilustrao, recomenda-se a audio da excelente cano Garonete da Casa de Fado, do lbum Cano ao Lado, do conjunto Deolinda, cujo eu lrico, uma garonete brasileira em casa de fado, se pergunta por que no se dana o fado, soltando o refro: No Brasil casa de fado no seria mole assim!.

Foi tambm do mesmo rgo municipal a iniciativa de lanar junto UNESCO a candidatura para que o fado fosse elevado a patrimnio cultural imaterial da humanidade, concedida em dezembro de Isto , o fado no mais apenas uma cano regional, ou um ritual popular, mas, e cada vez mais, ganha ares de pilar simblico nacional. As letras de canes populares enquanto objeto de estudo foram por muito tempo negligenciadas pelos departamentos universitrios.

Nas ltimas dcadas, porm, com. Com relao aos Estudos Literrios, se a Lingustica teve uma forte influncia no desenvolvimento da Antropologia na primeira metade do sculo XX, pode-se dizer tambm que esta vem, cada vez mais, influenciando aquela.

Dito isso, qual a relevncia em se estudar as letras do fado? Qual tipo de contribuio pode-se esperar desse tipo de pesquisa para os Estudos Literrios? Qual a importncia das letras de fado, no contexto cultural portugus, se comparadas a outros artefatos culturais? Em primeiro lugar, o fado enquanto manifestao cultural importa por sua durabilidade no contexto social portugus.

Tendo surgido h cerca de anos, ao invs de perder o flego, pode-se afirmar que o fado atualmente est mais vivo do que nunca. Cantores consagrados lotam casas de espetculos, novos talentos aparecem regularmente, casas tradicionais de fado continuam cheias de turistas e portugueses. Consequentemente, assim como os seixos que, transportados pelas guas, lentamente, com a pacincia do tempo, tm arredondadas suas arestas, mantendo apenas o seu ncleo essencial, o que fica hoje do fado o ncleo de uma manifestao cultural que revela a alma de um povo.

Ao longo desses quase dois sculos, muitos fados foram cantados, muitas letras foram escritas, muitos temas foram. O que sobrou atualmente do fado a essncia nuclear de uma manifestao cultural que, por todos os motivos listados acima, representa, portanto, um discurso privilegiado, uma janela importante de onde podemos enxergar, desvendar algumas facetas identitrias portuguesas.

Nas palavras introdutrias do grande clssico entre os estudos do fado, Histria do Fado, de Pinto de Carvalho: E um fado do poeta Manuel Alegre, Fado fado, parece reiterar tal argumento ao cantar: BRAGA, Para alm de ser um discurso privilegiado no mbito cultural desta sociedade, o fato de Portugal ser um pas pequeno potencializa ainda mais sua fora enquanto elemento etnogrfico rico.

Veja-se o samba, a ttulo de comparao. O samba o gnero musical nacional de um pas completamente multifacetado e desigual como o Brasil, com cerca de milhes de habitantes, surgido h mais ou menos anos. Em contrapartida, o fado, que tem o dobro de longevidade do samba, a msica nacional de um grupo social quase vinte vezes menor do que a populao brasileira.

Em outras palavras, parece muito menos propcia a erro a atribuio de concluses identitrias a respeito de Portugal mediante um estudo profundo do fado do que uma tentativa de tirar concluses acerca do povo brasileiro por meio do samba. Como j foi ressaltado por Antnio Jos Saraiva,. Poderamos dizer que Portugal, culturalmente, um pas monoltico no sentido de que no se podem separar nele blocos de composio diferente, embora os gros sejam muito variados. A existncia da nao nunca perigou por oposies das regies entre si.

J no tempo de Ferno Lopes se dizia que para onde vai Lisboa vai todo o reino. Portanto, a descoberta de certas repeties, ou mesmo de certas obsesses temticas, a revelao de cacoetes estilsticos que sobrevivem ao tempo, ganhando fora com a renovao sucessiva de geraes, especialmente no caso do fado, pode trazer aos estudos literrios uma rica contribuio.

Lanando luz sobre novos aspectos da mundividncia do povo portugus por meio de como ele v Lisboa, novas chaves de leitura podem surgir. Principalmente, com. A origem do fado e sua histria at os dias de hoje j foram estudadas por grande nmero de autores que, em conjunto, quase que encerram tudo que preciso saber a esse respeito.

O presente subcaptulo, portanto, no se estender por detalhes da histria do fado, mas sim far um breve resumo essencial de sua evoluo no tempo, para que o desenvolvimento dos prximos captulos seja mais bem compreendido luz do seu carter inicial, de suas razes.

Segundo diferentes relatos de estudiosos e viajantes que passaram pelo Rio de Janeiro no incio do sculo XIX, o fado j era uma dana bastante presente nesta sociedade. Mas o relato mais interessante, porm, o do romancista brasileiro Manuel Antnio de Almeida que descreve a dana do fado em detalhes em seu Memrias de um Sargento de Milcias, publicado em Da a pouco comeou o fado. Todos sabem o que fado, essa dana to voluptuosa, to variada, que parece filha do mais apurado estudo da arte.

Uma simples viola serve melhor do que instrumento algum para o efeito. O fado tem diversas formas, cada qual mais original. Ora, uma s pessoa, homem ou mulher, dana no meio da casa por algum tempo, fazendo passos os mais dificultosos, tomando as mais airosas posies, acompanhando tudo isso com estalos que d com os dedos, e vai depois pouco e pouco aproximando-se de qualquer que lhe agrada; faz-lhe diante algumas negaas e viravoltas, e finalmente bate palmas, o que quer dizer que a escolheu para substituir o seu lugar.

Assim corre a roda toda at que todos tenham danado. Outras vezes um homem e uma mulher danam juntos; seguindo com a maior certeza o compasso da msica, ora acompanham-se a passos lentos, ora apressados, depois repelem-se, depois juntam-se; o homem s vezes busca a mulher com passos ligeiros, enquanto ela, fazendo um pequeno movimento com o corpo e com os braos, recua vagarosamente, outras vezes ela quem procura o homem, que recua por seu turno, at que enfim acompanham-se de novo.

H tambm a roda em que danam muitas pessoas, interrompendo certos compassos com palmas e com um sapateado s vezes estrondoso e prolongado, s vezes mais brando e mais breve, porm sempre igual e a um s tempo. Alm destas h ainda outras formas de que no falamos. A msica diferente para cada uma, porm sempre tocada em viola.

Muitas vezes o tocador canta em certos compassos uma cantiga s vezes de pensamento verdadeiramente potico. Quando o fado comea custa a acabar; termina sempre pela madrugada, quando no leva de enfiada dias e noites seguidas e inteiras. O fado, herdeiro direto do lundu afro-brasileiro, tinha coreografia variada, sendo danado por pares em nmero varivel, s vezes em formato de roda. Segundo Rui Vieira Nery, a dana descrita como voluptuosa, ou mesmo imoral, assentando como sucede com outras danas desta poca de matriz afro-brasileira num movimento alternado de aproximao e afastamento entre os dois parceiros que tem evidentes conotaes sensuais.

Com a intensificao do intercmbio cultural entre imprio e colnia depois da vinda da corte portuguesa para o Brasil, a hiptese mais aceita, e que parece a mais coerente, que o fado tenha sido, portanto, levado para Lisboa, onde, recebendo novas e numerosas influncias ao longo do tempo, tenha evoludo para algo mais prximo do fado que todos conhecem hoje em dia.

Muitas tentativas de explicar todas essas influncias recebidas pelo fado j foram empreendidas, apesar de poucas evidncias. Interessante, porm, citar algumas.

Para o professor Gonalo Sampaio, no seu As origens do Fado, o fado no passa, afinal, de uma leve modificao, quase meramente rtmica, do [canto de] S. Joo, que o fadista adulterou ao prolongar muito naturalmente a primeira nota radical, para dar cano o expressivo do lamento pela fatalidade do seu destino.

Outros, como Tefilo Braga e Mascarenhas Barreto, davam credibilidade crena, hoje j descartada pelos estudiosos, de uma origem rabe ou moura das razes do fado. Por outro lado, diferentes estudiosos acreditam numa sntese de diversas influncias. Para Eduardo Sucena,.

O fado constitui um fenmeno potico-musical complexo, que no pode deixar de ser relacionado, nas suas razes longnquas, com os cantares provenais, e designadamente com o plang, cano elegaca, em duas das suas formas mencionadas no Cancioneiro da Biblioteca Nacional [ Sucena, alm disso, cita o relato do secretrio da embaixada da Inglaterra, Rodney Gallop, que estudou o assunto e que ilustra bem essa hiptese de fuso de diferentes ritmos:.

Pela minha parte no posso considerar o fado seno como sntese, estilizada por sculos de lenta evoluo, de todas as influncias musicais que afectaram o povo de Lisboa. Musicalmente, o modelo do fado portugus em seus primrdios consistia de. Apesar do incansvel debate, o fato que o fado, ao longo do sculo XIX, transformou-se de uma lasciva dana brasileira em um gnero musical tipicamente lisboeta, cuja evoluo recebeu inmeras influncias: Somam-se a isso, em dcadas futuras, o advento do rdio, da indstria fonogrfica, do crescimento da imprensa, etc.

Em outras palavras,. Um dos mitos, porm, mais interessantes e repetidos a respeito da origem do fado aquele que afirma que ele tenha surgido no mar, conforme observa Pinto de Carvalho:. Jovens femeeiros e bomios da aristocracia que frequentavam bairros populares de Lisboa. Das suas notas mestas e lentas, de uma gravidade de legenda, de uma suavidade tpida, parece emanar uma estranha emoo, impregnada, a um tempo, de melancolia e de amor, de bonito sofrimento e de moribundo sorriso.

O fado nasceu a bordo, aos ritmos infinitos do mar, nas convulses dessa alma do mundo, na embriaguez murmurante dessa eternidade da gua. E ainda, citando Lus Augusto Palmeirim, Carvalho continua: No por acaso que o clebre fado de Jos Rgio, Fado Portugus, , ainda hoje, um dos mais amados e executados em Portugal:. O Fado nasceu um dia, Quando o vento mal bulia E o cu o mar prolongava, Na amurada dum veleiro, No peito dum marinheiro Que, estando triste, cantava, Que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha, Meu cho, meu monte, meu vale, De folhas, flores, frutas de oiro, V se vs terras de Espanha, Areias de Portugal, Olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro Do frgil barco veleiro, Morrendo a cano magoada, Diz o pungir dos desejos Do lbio a queimar de beijos Que beija o ar, e mais nada, Que beija o ar, e mais nada. Me, adeus. Adeus, Maria. Guarda bem no teu sentido Que aqui te fao uma jura: Que ou te levo sacristia, Ou foi Deus que foi servido Dar-me no mar sepultura. Ora eis que embora outro dia, Quando o vento nem bulia E o cu o mar prolongava, proa de outro veleiro Velava outro marinheiro Que, estando triste, cantava, Que, estando triste, cantava.

Como bem resumiu ento Rui Vieira Nery a respeito desta proliferao de diferentes teses vagas que se debruam sobre a origem do fado:.

Nenhum investigador minimamente rigoroso voltar a insistir desde ento em qualquer destas hipteses de mera especulao, e pelo contrrio Sousa Pinto, Frederico de Freitas, Rodney de Brito, Luis Moita, Antnio Osrio, e mais recentemente Joaquim Pais de Brito, Salza Castelo-Branco, Ramos Tinhoro ou Ruben de Carvalho, independentemente das diferenas de pormenor entre as leituras propostas por cada um, tm contribudo para sustentar os dados sugeridos pelas fontes histricas que j aqui apresentamos e discutimos.

Paralelamente, contudo, vai surgindo ao longo de todo sculo XX uma vasta corrente de literatura menor sobre o assunto que a partir de maus textos de divulgao ter como consequncia a circulao generalizada de uma tese rabe, uma tese trovadoresca e uma tese martima, frequentemente a exigirem ainda hoje um estatuto de dignidade cientfica de que carecem por completo, tanto na sua formulao como na sua fundamentao cientfica.

Apesar da afluncia de diferentes correntes de pensamento acerca das origens do fado, para o presente estudo o que parece mais cabvel que o fado tenha vindo para Portugal de um modo e, rapidamente, modificou-se, sofrendo as influncias j citadas e inclusive outras de que no se tm notcias.

Evidente tambm certa inclinao para a aucarada esttica romntica at hoje em suas letras. Influncia do cantar rstico das colheitas. Do modo de cantar peras no sculo XIX. Com cerca de anos de histria, talvez tenha acontecido na evoluo do fado muito mais do que foi possvel escrever at os dias de hoje a seu respeito. O que importa que se o fado aqui chegou, e com caractersticas definidas, isso sim tem um motivo.

Se Lisboa descrita pelo fado como uma mulher, ento esta uma evidncia importante e reveladora. Se o fado triste, se o silncio fundamental para o ritual, isso diz algo sobre a psicologia do povo.

O presente estudo parte da mesma hiptese que partiu Antnio Jos Saraiva em seu A Cultura em Portugal , a de que uma cultura nacional tem uma certa identidade e uma certa permanncia no tempo, qualquer que seja a razo disso. E uma dessas caractersticas identitrias, que hoje praticamente senso comum, apesar de ter causado j algumas discusses tericas, encontra-se no tom dolente, melanclico e triste do fado. Em , j Lus Augusto Palmeirim assim descrevia a questo:. Se a msica, o canto e a dana populares so das mais seguras caractersticas da nacionalidade de qualquer povo, entre ns o mais genuno representante destas artes incontestavelmente o fadista.

Os montonos e plangentes sons da guitarra casamse admiravelmente com a palavra quase sempre triste do fado, e com o compasso ora lnguido, ora vivo, da dana, que os acompanha. So muitssimas as referncias existentes que colocam nfase sobre a relao entre a tristeza e o fado.

Nas palavras do fadista Frederico Vinagre: O fado fala da vida das pessoas, fala das emoes de um povo que talvez seja um povo um bocadinho triste, mas pronto, somos assim mesmo, a nossa verdade que ali est [ Concordando com ele, a estudiosa do assunto Maria Lusa Guerra defende que a tristeza o impulso mais profundo da sensibilidade portuguesa: Alm disso, inmeras letras de fado parecem ecoar tal percepo:.

Destino Marcado Se a tristeza me assiste E o fado assim se extasia, Prefiro ser sempre triste, Para no morrer de alegria. Os teus olhos so dois crios Dando luz triste ao meu rosto Marcado pelos martrios Da saudade e do desgosto.

O Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o cu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro que, estando triste, cantava. Apesar de sua clara taciturnidade, no verdade dizer que todo fado necessariamente triste. Se se concordar com as teorias de que o fado tem razes no lundu afro-brasileiro do sculo XIX, lcito supor que a dana fado no teve o tom dolente que hoje exibe, devido ao conhecido carter alegre desse povo, aliado ao fato do fado, nessa poca, ser danado.

Alm do mais, o fado serviu por muitas dcadas a uma funo de comunicar populao analfabeta fatos e crnicas cotidianas, muitas vezes feitos heroicos, casos policiais, anedotas, banalidades, etc.

Sendo assim, conclui-se que o fado devia ter uma variao muito maior do que hoje em termos de estados de esprito alegre, heroico, dramtico, triste, jocoso, obsceno. Com o passar do tempo, isso mudou. Hoje em dia um fato empiricamente reconhecido que a grande maioria das canes fadistas melanclica. Entrando um pouco mais nos pormenores da vertente triste do fado, o grande fadista Carlos do Carmo explica bem como o fado dividido:. O fado tem trs razes musicais que carregam consigo as suas mltiplas possibilidades de interpretao atravs do canto: Apesar dessa explicao, importante ressaltar que tal tringulo rtmico e de estados de esprito do fado no consiste em um tringulo issceles: Em outras palavras, poder-se-ia defender que o fado tem como pano de fundo um certo esmorecimento, uma certa inclinao existencial para a melancolia, mesmo quando baseado numa estrutura rtmica mais corrida e teoricamente alegre, ou jocosa.

Parece que o fadista canta um desespero, mesmo quando trata de temas leves Como, num outro exemplo complementar, diz este fado de Manuel Alegre Fado fado:. Alegria descontente J Cames soube dizer. Que ser triste ser contente No ser assim morrer. No tristeza somente Um certo modo de ser.

Mas se o fado fundamentalmente melanclico, de onde viria este sentimento? Qual a razo para o desalento estrutural de um povo? Uma vertente de pensamento bastante comum pode ser resumida nas palavras de Avelino de Souza:. Este povo, que moureja de sol a sol e passa a vida sob a canga, como um boi nora; este povo, que ganha de dia para comer noite, mal remunerado, mal alimentado, mal vestido, no pode tomar a vida a rir, pela simples razo de que s alegre quem pode e no alegre quem quer.

SOUZA, , p. Ou seja, como o fado originalmente a cano dos vencidos, a cano dos marginais, das prostitutas, dos operrios, s poderia ser uma cano triste, pois o povo CONDE, Maria Lusa Guerra, em Fado: Alma de um Povo , tambm compactua com essa linha de pensamento. Conforme a autora, o dia a dia pesado, a explorao, a misria fez com que o povo mais rapidamente cantasse o fado, servindo este funo de evaso da m sorte.

No entanto, tal argumento to inerme quanto romntico. Basta pensarmos em grupos sociais igualmente ou mais ainda sofredores e oprimidos e suas canes alegres: No por um povo ser sofrido que sua msica ser necessariamente triste, principalmente se aceitarmos a funo catrtica e de evaso das mazelas do cotidiano. O fado cantado por gente da alta sociedade portuguesa, como o caso da condessa Maria Teresa de Noronha, no era por isso menos melanclico, assim como o fado de Coimbra, cantado por estudantes universitrios de uma classe mdia alta portuguesa.

Uma diferente linha de argumentao encontrada a este respeito defende que o povo portugus, esse sim, independentemente de sua situao social e material, que triste por natureza. E, apesar de controversa, so incontveis as referncias. O antroplogo portugus Rocha Peixoto no livro O Cruel e Triste Fado j sustentou em que o fado e o que nele se diz de sonho, de sombra, de amor, de cime, de ausncia, de saudade e principalmente de conformao com o cru e negro imprio do destino, eis o que exprime dramaticamente a feio da alma nacional.

Miguel de Unamuno, poeta, filsofo e catedrtico espanhol, que visitou Portugal inmeras vezes e que travou amizade com vrios escritores, como Guerra Junqueiro, Eugnio de Castro, Teixeira de Pascoaes,Vitorino Nemsio, dentre outros, detectou no povo portugus uma enorme tristeza e acreditava, tal como Oliveira Martins, que esse mal provinha, pelo menos no que ao povo tocava, da falta de um ideal coletivo [ Para Unamuno, o povo portugus era um povo suicida, e seu tom de tristeza, de desespero resignado e de resignao desesperada, no s est presente em quase toda a literatura portuguesa, mas justamente das suas melhores caractersticas.

Como exemplo do mais amargo desespero patritico ele cita os versos de Antnio Nobre: So tantas as passagens que Unamuno lana luz sobre o estado de esprito tpico do Portugus que algumas sero aqui elencadas:. Parece um povo que unicamente sabe chorar ou motejar.

Portugal um povo triste, e -o at quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cmica e jocosa, uma literatura triste. Portugal um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida no tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para qu? Mais vale no viver.

E no apenas Unamuno pensava assim. Numa carta para esse poeta espanhol, Manuel Laranjeira escreveu que em Portugal todos trazemos os olhos vestidos de luto por ns mesmos. Francisco da Cunha Leo, outro importante estudioso da cultura portuguesa, em seu Ensaio de Psicologia Portuguesa parece concordar: A leitura dos poetas, como expresses mximas da espiritualidade lusitana, elucidativa.

Quem diz poetas, diz o geral dos escritores e at dos homens de aco enquanto escritores. Dos que se abandonam alma. Todas as formas da tristeza e do desnimo da suave melancolia e dor de viver, funda angstia e ao desespero, com volpia no sofrimento e nsia da morteesto documentadas abundantemente na expresso portuguesa e a sua freqncia tal que chega a fazer lei.

Se fcil localizar referncias a respeito do carter melanclico do povo portugus, difcil deparar-se com explicaes convincentes para tal fenmeno. Segundo a autora, a melancolia do povo portugus expressa por meio de sua msica um trao muito antigo e remonta aos tempos das navegaes: As viagens martimas e o afastamento para novas terras contriburam para reforar a necessidade da msica.

Era uma evaso, um lamento, um remdio para minorar a distncia. Era a lembrana de horas felizes, um regresso e um encontro. Guitarras e violas eram Portugal. A saudade seria parte fundamental da anatomia do povo de Portugal. A dor da partida, da separao, da incerteza, das mortes, repetida de gerao em gerao, deu ao povo uma tonalidade prpria, intimista, resignada e sofrida.

Soma-se a esta dor o sentimento de fatalismo ligado ao drama desse destino. De acordo com a autora, esta fatalidade universal sentida pelo portugus com uma espcie de deleite dorido. Sabe que a no pode vencer, mas sublima-a no canto. Da o fado, enquanto destino, ter sido tema constante de muitos poetas, tais quais Cames e Bocage. A autora d o exemplo de Gil Vicente, em Triunfo do Inverno, que, segundo ela, retrata o fundo ancestral desse temperamento lamentoso, efeito dessa unio entre dor e fatalismo, que j seria extravasado pela msica:.

E agora Jeremias nosso tamborileiro. S em Barcarena havia Tambor em cada moinho, E no mais triste ratinho Senxergava uma alegria Que agora no tem caminho. Se olhardes as cantigas Do prazer acostumado, Todas tm som lamentado, Carregado de fadigas, Longe do tempo passado. Ser possvel, no entanto, afirmar que existe uma relao universal de causa e efeito entre as viagens martimas, a saudade, e a tristeza? Todo povo que sofreu grandes dores, desastres, tragdias igualmente soturno?

Se lembrados alguns outros exemplos, facilmente poder-se-ia discordar da autora. Dado que a Europa inteira atravessou inmeros perodos de pestes entre os sculos XIV e XVIII, chegando a perder, em algumas regies, metade de sua populao, seria espervel, tomando como certo o argumento dela, que todo mundo cantasse o fado.

Alm disso, ser que povos africanos, que se viram igualmente afastados de suas famlias, nos tempos do comrcio escravocrata, no sofreram ainda mais do que os navegadores portugueses e do que o povo que em terra ficou?

No seria exageradamente romntica a afirmao da autora quando diz que a experincia da partida, do barco que sai. Mas nenhum viveu essa experincia como o povo portugus [ Ao tentar responder a essas crticas, a prpria autora ensaia um argumento, ainda que confuso.

Guerra defende, ao fim e ao cabo, um determinismo geogrfico paisagem, clima, alimentao, etc. Portanto, no caso, o portugus, conforme a autora, teria uma predisposio, por habitar uma certa regio propensa tristeza, a sofrer mais com os acontecimentos histricos do que outros povos: Todos os povos tm um coeficiente gentico moldado pelo clima, pela paisagem, pela alimentao, pelos recursos do meio ambiente, pelo perfil somtico, pelo isolamento ou pela convivncia, pelas experincias coletivas.

Isto , caractersticas genticas, moldadas ao longo de sculos pelas idiossincrasias da regio, somadas aos infortnios histricos vividos pelo povo, confluram numa personalidade lamentosa e dorida do portugus. Em comparao com outros povos, por exemplo, Guerra defende que [o]s povos do Brasil tiveram outra circunstncia. Formou-os uma natureza exuberante de cor, com vegetao esplendorosa, horizontes largos e majestosos, flores magnficas, aves de plumagem faiscante, sons exticos, perfumes, riquezas sem fim, misturas tnicas, clima tropical, quente e amolecedor.

Alm das armadilhas, j conhecidas dos socilogos e antroplogos h mais de anos, do determinismo geogrfico a exemplo de que o brasileiro folgado porque o clima quente , como explicar, no entanto, que no se cantou o fado na verso dolente que hoje conhecemos no Brasil, dada a enorme quantidade de portugueses com sua estrutura gentica inclinada tristeza que aqui viviam e vivem?

Ser que alguns anos num pas tropical, com aves de plumagem faiscante, sons exticos so suficientes para modificar a estrutura gentica de uma pessoa? E os escravos que aqui estavam, ser que no sofreram o bastante a ponto de cantarem msicas lbregas? Ou sua estrutura gentica determinava que eles chegassem a algo mais alegre como o samba? Alm de ensaios e estudos sociolgicos acerca da alma portuguesa, grande a quantidade de passagens literrias que mencionam a melancolia portuguesa.

VERDE, , p. H um famoso verso que Antnio Nobre usa para descrever seu nico livro publicado, S: Que o livro mais triste que h em Portugal! NOBRE, , p. E tambm o verso posto por Eugnio de Castro na boca de Constana: Quero-te muito, Dor, amo-te imenso.

A esse respeito, e logrando ir mais fundo nas razes desse sentimento to portugus do que Maria Luisa Guerra, Carolina Michaelis de Vasconcellos mostra, em seu livro A Saudade Portuguesa , como traos dessa melancolia podem ser encontrados desde os primeiros textos literrios medievais.

Segundo a autora, a saudade e o morrer de amor [ A autora defende que este sentimento de melancolia, fruto do culto nacional da saudade, desenvolveu-se tanto entre os portugueses que j em fins do sculo XVI, a saudade era considerada quase como filosofia ou religio nacional. A vil tristeza, a tristeza m sem alma e corpo, a saudade cadavrica, dentro de um caixo. O que parece mais fivel, consequentemente, que o povo portugus cultiva a melancolia como um modo de estar no mundo, uma atitude existencial perante a vida.

Sua tristeza revela uma preferncia esttica, em ltima instncia; o gosto pelo ai, Jesus, pelos trajes pretos, pela exibio orgulhosa do luto. Essa tendncia para o triste certamente surgiu como resposta a uma repetio de situaes difceis durante sculos e sculos: Outros povos sofreram, mas Portugal viu poesia no triste, e soube, como ningum, revel-la por intermdio de sua arte, principalmente de sua poesia.

Isso no quer dizer que no haja rituais de felicidade em Portugal. Basta algum se dirigir ao Campo das Cebolas, ou qualquer outro arraial da cidade de Lisboa, no ms de junho, para presenciar o povo danando alegremente nas ruas, fora as manifestaes folclricas por todo o pas. Por motivos histricos, porm, o fado foi eleito o arauto do que mais portugus, mais caracterstico, o que inclui a melancolia. Portanto, e independentemente do mapeamento de suas razes, fica evidente que este sentimento que sobrevive at os dias de hoje em grande parte das letras de fado, como neste de Jernimo Bragana, Triste Sina:.

Mar de mgoas sem mars Onde no h sinal de qualquer porto. De ls a ls o cu cor de cinza E o mundo desconforto No quadrante deste mar, que vai rasgando, No horizonte, sempre venta minha frente, H um sonho agonizando Lentamente, tristemente Como comentou Antero de Quental: Caracterstica marcante do fado a posio de destaque que as letras das canes tem no conjunto da msica, assim como no todo do ritual. Uma das primeiras e mais claras evidncias desse fato a importncia dada ao silncio nos encontros onde se canta o fado.

No teria ele, portanto, outra funo seno a de canalizar todas as atenes ao texto das canes. Como sabido, algo muito diferente de um ritual roda de samba, por exemplo. Concordando com esse ponto de vista, o fadista Antnio Pinto Bastos declarou o seguinte em entrevista Teresa Castro dAire: Segundo defendem os historiadores do fado, a explicao diacrnica para tal fenmeno est em suas origens. Conforme Vieira Nery, a msica dos primeiros fados revela uma prtica meldica fundamentalmente improvisatria a partir de um grupo estvel de padres formais.

Desde os primrdios do fado at os dias de hoje, h uma ntida separao funcional entre msica e letra. H um corpus limitado de melodias, conhecidas e partilhadas.

Tal caracterstica do fado est diretamente ligada tradio de improviso que sempre existiu, principalmente em tempos passados. Alguns dos poemas antigos que nos chegaram so meras sequncias de quadras soltas, que circulavam na tradio popular sem indicao de autoria, podendo ser apropriadas livremente por cada autor. O fado foi, em seus primrdios, uma msica produzida e consumida entre a realidade operria e o submundo lisboeta, sendo uma prtica cultural destinada aos momentos de lazer e de encontro comunitrio: Assim sendo, como tal camada baixa da populao era, em sua grande maioria, analfabeta, o fado foi, por muitas dcadas, umas das principais fontes de notcias, crnicas e histrias deste povo.

Somase a isso, igualmente, o primitivo estado dos meios de comunicao de Portugal no sculo XIX para se ter completo o quadro. Da, portanto, a grande importncia dada s letras dos fados, como atestam tambm os fadistas Rodrigo:.

Ainda hoje o fadista uma espcie de veculo de consciencializao [sic] social. Joo Braga: Porque so melodias muito bonitas, mas muito pouco ricas; o suporte das melodias, os acordes, so quase sempre os mesmos, [ DAIRE, ,p.

Eram acompanhados pelas guitarras, mas nessa altura o fado era muito mais o que se dizia, e como se dizia, do que propriamente a voz, e a msica muito menos ainda, era uma coisa que tinha muito pouca importncia.

Portanto, no princpio era uma espcie de despique entre as pessoas que cantavam, eram as desgarradas, que tiveram na altura uma. Era, sim, o divertimento daquelas pessoas que no tinham muito mais com que se divertir.

Inicialmente, quase todos os temas possveis foram cantados atravs do fado. Alm da vida do fadista e da morte das mal-fadadas que viveram entre o povo, o Fado canta ainda outros assumptos, a saber: Entre as classes sociaes que so cantadas no Fado, avulta a dos marinheiros, talvez pela razo, de que o marujo meio fadista.

Hoje em dia, o que se observa nas vielas e sales de Lisboa onde se canta o fado uma gama muito menos diversificada de temas. Depois de uma extensa audio de mais de mil fados para esta pesquisa, em conjunto com muitas idas a casas de fados, foi possvel constatar que a grande maioria dos fados cantados atualmente falam, em tom dolente, do amor romntico. Ou canta-se um sentimento de imensa tristeza por um amor que j no est mais.

E assim termina a Ceia dos Cardeais, pea emblemtica do teatro portugus do incio do sculo XX, escrita por Jlio Dantas e representada pela primeira vez no antigo teatro D. Amlia, em 28 de Maro de Na histria, trs cardeais, j no crepsculo da vida, depois de um banquete regado a muita bebida alcolica, resolvem revelar uns aos outros suas maiores confidncias de amor:.

Em toda a mocidade h um riso de mulher. Contemos esse riso uns aos outros Ns trs Recordar um amor amar outra vez! Ningum nos ouve O Primeiro Cardeal, espanhol de nome Rufo, comea por contar uma grande aventura donjuanesca de capa e espada, ocorrida quando este tinha vinte e dois anos. Sozinho, por causa de uma atriz de um loiro flamengo, a cabecita airosa, lutou contra dezenas de homens, a capa ao vento, a espada em punho, a pluma erguida, matando alguns, ferindo outros, e salvando, portanto, a mulher, sem t-la sequer falado na sequncia.

Depois de tal palestra, a vez do Cardeal de Montmorency, francs, contar como ficou enamorado por uma esperta e mordaz embaixatriz de ustria, em Versalhe, que lhe disse insolncias.

Este se vangloria de t-la conquistado, por meio da astcia e do verbo, em apenas 30 minutos. Por ltimo, o portugus, Cardeal Gonzaga, comea por dizer:.

Em como diferente o amor em Portugal! Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento Uma lgrima Um beijo Uns sinos a tocar Um parzinho que ajoelha e que se vai casar. To simples tudo! Em sendo triste canta, em sendo alegre chora! O amor simplicidade, o amor delicadeza Ai, como sabe amar, a gente portuguesa! Tecer de Sol um beijo, e, desde tenra idade, Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade, Numa ternura casta e numa estima s, Sem saber distinguir entre a noiva e a irm Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas, Como se em comunho se entendessem as rosas, Como se todo o amor fosse um amor smente Ai, como diferente!

Ao contrrio do amor aventura, do amor conquista, de outros povos, o lusitano vive o amor puro, que nasce na infncia, numa aldeia simples, paisagem agradvel: Porm, como no podia deixar de ser, para ser mesmo amor portuguesa, esta criana de profundo olhar, expresso to doce, e que facilmente faz lembrar a Purinha, de Antnio Nobre, uma noite morreu.

Por conseguinte, tomando esse exemplar resumo como ponto de partida, tem-se o amor portugus definido desta forma e dividido em duas facetas: E no fado tambm no diferente. Apesar de sua temtica, como j foi dito acima, ser muito variada, evidente que o tpico mais frequente, mais essencial, do repertrio fadista o da lamentao fatalista das infelicidades amorosas predestinadas.

O Namorico da Rita No mercado da ribeira h um romance de amor entre a Rita que peixeira e o Chico que pescador.

Sabem todos os que l vo que a Rita gosta do Chico s a me dela que no consente no namorico. Quando ele passa por ela, ela sorri descarada porm o Chico cautela no d trela nem diz nada, que a me dela quando calha ao ver que o Chico se abeira por d c aquela palha faz tremer toda a ribeira. Namoram de manhzinha e da forma mais diversa dois caixotes de sardinha do dois dedos de conversa e h quem diga boca cheia que depois de tanta fita o Chico de volta e meia prega dois beijos na Rita.

Quando ele passa por ela, ela sorri descarada porm o Chico cautela no da trela nem diz nada que a me dela quando calha ao ver que o chico se abeira por d c aquela palha faz tremer toda a ribeira. Troca de Olhares Os olhares que te deito Desde a hora em que te vi So as falas do meu peito Que morre de amor por ti! Quantos olhares so trocados Em segredos envolvidos! Sinais mudos, bem falados, Por quem so compreendidos! No preciso falar Havendo combinaes Porque a troca do olhar a voz dos coraes!

Sem que eu te pea Nem me ds nada que ao fim Eu no merea V se me deitas depois Culpas no rosto Isto sincero Porque no quero Dar-te um desgosto De quem eu gosto Nem s paredes confesso E at aposto Que no gosto de ningum Podes sorrir Podes mentir Podes chorar tambm De quem eu gosto Nem s paredes confesso. Sardinheiras Um dia ele seguiu-me Da gua onde eu morava Cumprimentou-me, fugiu-me E a outro dia l estava.

Atirei-lhe de trapeira Da minha gua furtada Uma rubra sardinheira Que se tornou mais corada. Depois, nunca mais o vi Nem do seu olhar a chama Passou tempo, descobri Que ele morava na Alfama. Uma noite, sem pensar Pus o meu xaile, meu leno E fui atrs desse olhar Que deixara o meu suspenso.

Hoje moro onde ele mora Hoje durmo onde ele dorme E s olho por dentro e por fora Da minha alegria enorme. Gro de Arroz O meu amor pequenino como um gro de arroz, to discreto que ningum sabe onde mora. Tem um palcio de oiro fino onde Deus o ps, E onde eu vou falar de amor a toda hora!

Cabe no meu dedal, to pequenino , E tem o sonho ideal expresso em f descendente de um sulto, talvez do rei Saul, Vive na casa do boto do meu vestido azul! Ai, quando o amor vier, Seja o que Deus quiser!

O meu amor pequenino como um gro de arroz Tem um palcio que o amor aos ps lhe ps! Fado Falado Fado Triste Fado negro das vielas Onde a noite quando passa Leva mais tempo a passar Ouve-se a voz Voz inspirada de uma raa Que mundo em fora nos levou Pelo azul do mar Se o fado se canta e chora Tambm se pode falar Mos doloridas na guitarra que desgarra dor bizarra Mos insofridas, mos plangentes Mos frementes e impacientes Mos desoladas e sombrias Desgraadas, doentias Quando traio, ciume e morte E um corao a bater forte Uma histria bem singela Bairro antigo, uma viela Um marinheiro gingo E a Emlia cigarreira Que ainda tinha mais virtude Que a prpria Rosa Maria Em dia de procisso Da Senhora da Sade Os beijos que ele lhe dava Trazia-os ele de longe Trazia-os ele do mar Eram bravios e salgados.

E ao regressar tardinha O mulherio tagarela De todo o bairro de Alfama Cochichava em segredinho Que os sapatos dele e dela Dormiam muito juntinhos Debaixo da mesma cama Pela janela da Emlia Entrava a lua E a guitarra esquina de uma rua gemia, Dolente a soluar. E l em casa: Mos amorosas na guitarra Que desgarra dor bizarra Mos frementes de desejo Impacientes como um beijo Mos de fado, de pecado A guitarra a afagar Como um corpo de mulher Para o despir e para o beijar Mas um dia, Mas um dia santo Deus, ele no veio Ela espera olhando a lua, meu Deus Que sofrer aquele O luar bate nas casas O luar bate na rua Mas no marca a sombra dele Procurou como doida E ao voltar da esquina Viu ele acompanhado Com outra ao lado, de brao dado Gingo, feliz, levio Um ar fadista e bizarro Um cravo atrs da orelha E preso boca vermelha O que resta de um cigarro Lume e cinza na viela, Ela v, que homem aquele O lume no peito dela A cinza no olhar dele E o ciume chegou como lume Queimou, o seu peito a sangrar Foi como vento que veio Labareda atear, a fogueira aumentar Foi a viso infernal A imagem do mal que no bairro surgiu Foi o amor que jurou Que jurou e mentiu Correm vertigens num grito Direito ou maldito que h-de perder Puxa a navalha, canalha.

No h quem te valha Tu tens de morrer H alarido na viela Que mulher aquela Que paixo a sua E cai um corpo sangrando Nas pedras da rua Mos carinhosas, generosas Que no conhecem o rancor Mos que o fado compreendem e entendem sua dor Mos que no mentem Quando sentem Outras mos para acarinhar Mos que brigam, que castigam Mas que sabem perdoar E pouco a pouco o amor regressou Como lume queimou Essas bocas febris Foi um amor que voltou E a desgraa trocou Para ser mais feliz Foi uma luz renascida Um sonho, uma vida De novo a surgir Foi um amor que voltou Que voltou a sorrir H gargalhadas no ar E o sol a vibrar Tem gritos de cor H alegria na viela E em cada janela Renasce uma flor Veio o perdo e depois Felizes os dois L vo lado a lado E digam l se pode ou no Falar-se o fado.

Como se pode perceber, o tema do amor to extenso que se desenrola num certo enredo, numa trama, s vezes com comeo, meio e fim. Primeiro a troca de olhares, o namorico, depois a felicidade efmera, em seguida o cime, a dor, que culmina ou em trgica morte, ou em lrica saudade. Muitos foram os estudiosos que com afinco analisaram o amor portugus e sua expresso literria.

Para Francisco da Cunha Leo logo na poesia trovadoresca bifurcam-se duas linhas com atitudes opostas em relao mulher. Por um lado, uma. A extrema vivncia amorosa ressalta da pequena histria s vezes decisiva, tornada grande, ilustra a poesia portuguesa e a novelstica, dos Cancioneiros e do Amadis, lrica de Cames, s glogas, a Gonzaga e Bocage, s Cartas de Soror Mariana, s novelas de Camilo, a Joo de Deus, Nobre, Florbela, etc LEO, , p.

Segundo o autor, o fado refletiria esse aspecto, nostlgico de pureza. Por outro lado, a linha da stira de amor, tenderia ao obsceno, com frequncia sendo grosseira e at pornogrfica. A mulher que no corresponda quela idealidade aparece desrespeitada.

Neste pas onde uma adorao amorosa abundante e obsessiva marcou a expresso literria, de estranhar o prosasmo, a reserva mental, o tom sardnico do seu adagirio a propsito da mulher. So de velha data usuais anexins como estes: A mulher e o pedrado quer-se pisado, Ainda no nascida, j espirra, O homem na praa, a mulher em casa, Mula que faz him e mulher que fala latim, raramente tem bom fim, A mulher e a galinha, com o sol recolhida, a mulher e a cachorra, a que mais cala a mais boa, De m mulher te guarde e de boa no fies nada, etc Para Carolina Michaelis de Vasconcelos , a saudade e o morrer de amor so tambm as principais sensaes que vibram nas melhores obras da literatura portuguesa, lembrando que logo no alvorecer da poesia, ainda antes de , surgem naturalmente lindos lamentos de amor e de ausncia.

Como bem adverte Unamuno, mais do que memrias dos seus tempos de glrias os [ Portugal parece a ptria dos amores tristes e dos grandes naufrgios. Ora bem, no possvel falar de literatura portuguesa e amor sem falar em quadras populares. At hoje, na noite de Santo Antnio de Lisboa padroeiro dos namorados , vendem-se ramos de manjerico com bandeirolas de papel espetadas trazendo quadras de amor. Segundo Antnio Jos Saraiva , talvez quase todos os poetas de Portugal se iniciaram na poesia pelas quadras populares que os envolveram, como uma atmosfera, desde a infncia.

E ao lado dos escritores cultos e dos estudantes, que se juntavam s vezes em grupos a fazerem quadras, so tambm inumerveis os autores populares e analfabetos que improvisam em desafio quadras que depois se difundem e popularizam por todo o pas. E o tema de tais quadras, na grande maioria das vezes, amoroso. Com relao ao fado, talvez a esteja uma das pontes entre a poesia dita erudita e as letras de suas canes, pois desde o comeo, muitas melodias eram fixas e quadras diversas eram cantadas pelas pessoas, como que encaixadas nas melodias.

Pode dizer-se que o Cancioneiro Popular portugus um espelho simplificado do que a [ O autor compara um trecho de cantar de amigo com uma quadra popular muito semelhante:. Ai estorninho do avelanedo Cantades vs e moireu e peno. Damores hei mal. Passarinho que cantais Neste raminho de flores, Cantai vs, chorarei eu. Assim faz quem tem amores. Segundo Saraiva ainda, h uma grande estabilidade da tradio potica portuguesa em geral que ou devida a hbitos persistentes ou permanncia dos esprito do mesmo povo atravs sic dos tempos.

Ele concorda com os outros estudiosos citados acima que o amor um tema extraordinariamente obsessivo na literatura portuguesa, assim como no fado. Trata-se em geral do amor-paixo que se compraz na ausncia, na impossibilidade de realizao, na autodestruio, amor a fogo brando, sem sentimento trgico, exceptuando Camilo e o Garrett das Folhas Cadas. Chega a ser um estado de insatisfao sem objeto. Assim aparece no fado. A um portugus que lloraba preguntaron la ocasin. Respondi que el corazon y que namorado estaba.

Por minorar su dolor,. Le preguntaron de quin? Pues de ningun, lloro de puro amor. Teixeira de Pascoaes afirmava que o amor portugus justamente o amor saudoso, o dolorido culto da mulher santificada pela ausncia, contemplada atravs sic de uma lgrima que lhe transmuda o corpo carnal em vulto de lembrana.

O corao portugus adora, sobretudo, a imagem da bem-amada. O mesmo Pascoaes dizia que a obra mais representativa da Raa, por mais espontnea, o Cancioneiro Popular. Nele transparece encantadoramente a fuso dos contrastes: Consequentemente, o amor portuguesa s poderia ser o tema essencial das canes do fado, que se ramifica em seus vrios desdobramentos: Como no poderia deixar de ser, contudo, esse tema quase sempre debuxado sobre um fundo melanclico, que lamenta o amor como se vivesse a sua plenitude por meio de tal lamento.

Como j visto na seo 2. Pelos motivos j referidos, o fado era, principalmente no passado, um importante veculo de comunicao da gente pobre e analfabeta e, portanto, podia tratar de variado assunto. Porm, hoje em dia, pode-se observar uma sedimentao de alguns temas, alm daquele do amor portuguesa, que ou so mais tratados, ou so aqueles mais cantados pelo povo.

Uma das lendas a respeito da origem do fado que ele tenha surgido no mar, com o cantar nostlgico dos marinheiros que por terra deixavam famlia, noiva, esposa, como bem resume o fabuloso fado de Jos Rgio j citado.

Em todo caso, mais do que sabido que o mar exerce um papel central na mundividncia do povo portugus, que por muitos sculos viu-se preso entre o Oceano Atlntico, grande e desconhecido, e a Espanha, eterna inimiga.

Assim, Portugal foi obrigado a sair pelo mar a fim de progredir economicamente. E essa empreitada de sculos foi a grande responsvel pelas maiores glrias desse povo, mas tambm sua maior fonte de dores.

A viagem de Vasco da Gama um paradigma: Tomou o valor de smbolo e pode ler-se como um ndice do nosso modo colectivo de ser e de estar no mundo. Como j visto anteriormente neste texto, muitos j se debruaram sobre a correlao da melancolia estrutural do portugus e essa campanha martima. Alguns, como a prpria Maria Lusa Guerra , chegam a defender que o portugus sofreu como mais ningum por causa das navegaes e por isso canta o fado.

Pois bem, e como o fado canta o mar? Em primeiro lugar, como j vimos, para o fado o Oceano seu grande bero. Alm do poema de Rgio, h uma importante cano de Linhares Barbosa que diz:. Ao sabor das ondas O fado nasceu no mar Ao balano de ondas mil Por bero teve um navio Por coberta um cu de anil. Numa barquinha vogando Batida pelo luar Ouvi um nauta cantando O fado nasceu no mar. Ademais, o tema da despedida sempre presente. H um certo orgulho do aventureiro que se arrisca pela ptria, mas que, por meio do lamento, canta a saudade, e mostra o lado sensvel e lrico que o humaniza.

Fragata H quem diga que as saudades Foi em terra que as deixei Mas juro que so falsidades. Que as que trago s eu sei. Juntei-as em meu redor Como um s que no desato. Vo comigo para onde eu for dentro da minha fragata. Meu amor marinheiro Meu amor marinheiro E mora no alto mar Seus braos so como o vento Ningum os pode amarrar Quando chega minha beira Todo o meu sangue um rio Onde o meu amor aborda Seu corao, um navio Meu amor Disse que eu tinha Na boca um gosto, a saudade E os cabelos onde nascem Os ventos e a liberdade Meu amor marinheiro Quando chega minha beira Acende um cravo na boca E canta dessa maneira Eu vivo l longe, longe Onde dormem os navios Mas um dia hei de voltar Nas guas de nossos rios Hei de passar nas cidades Como o vento nas areias E abrir todas as janelas E abrir todas as cadeias Meu amor marinheiro E mora no alto mar Corao que nasceu livre No se pode acorrentar.

Ilustrando mais a relao entre tristeza, mar e msica para o portugus, pode ser muito esclarecedor este soneto de Gomes Leal, que parece at ecoar no poema de Antnio Botto:. Carta ao Mar Deixa escrever-te, verde mar antigo, Largo Oceano, velho deus limoso, Corao sempre lyrico, choroso, E terno visionario, meu amigo! Das bandas do poente lamentoso Quando o vermelho sol vae ter comtigo, - Nada mais grande, nobre e doloroso, Do que tu, - vasto e humido jazigo!

Nada mais triste, tragico e profundo! Ninguem te vence ou te venceu no mundo! Mas tambem, quem te poude consollar?! Tu s Fora, Arte, Amor, por excellencia! E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia; - A Musica mais triste inda que o Mar!

Carlos grew up in the city of Lisbon, an environment full of various and diverse elements. He was introduced to a heavily musical influenced lifestyle. He has three children, two boys and one girl with his spouse Judite do Carmo.

He was also a Commander of the Order of Prince Henry. In , he won the Portuguese Song Contest, with " Uma flor de verde pinho ". The song finished 12th in the Eurovision Song Contest He has established his own reputation as a passionate singer of Portuguese folk songs, as well as one of the most distinctive voices in the world. He first left Lisbon in his youth, to study hotel management in Switzerland but, with the death of his father Alfredo de Almeida in , do Carmo soon joined his mother to help her run their fado house, the Faia.

In he married Maria Judite de Sousa Leal. While fado remains at the core of his music, do Carmo has used Frank Sinatra -style and French-style pop balladry and Brazilian bossa nova to give his music its distinct flavor. His uniqueness, apart from the special timbre of his voice, is in his ability to bring composers from other styles such as jazz. This is mainly seen in his success Um Homem na Cidade , which although now known as a fado classic, has an obvious jazz chord progression.

His main successes came in the s, as he was one of the most prominent singers commemorating freedom during the Lisbon uprising of , along with Fernando Tordo and Paulo de Carvalho amongst others. In he performed a special concert in Lisbon , singing songs made famous by Frank Sinatra , with the backing of the Count Basie Orchestra directed by Dennis Mackrel.

Carlos has traveled all across the globe to perform his work in places like France, Brazil, North America and many other places and continents. His style of music and performance has led him to become one of the most recognized and well-respected artists today. Carlos do Carmo has received a quite considerable amount of Gold and Platinum commendations for his work.

Carlos do Carmo celebrated 50 years of his career in

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5 thoughts on “download Lisboa Menina E Moça - Abilius - Postais Musicais (CD, Album) full album

  • Zulkigami
    05.09.2010 at 22:02
    Permalink

    In my opinion you are mistaken. I can prove it.

    Reply
  • Gardagor
    08.09.2010 at 19:45
    Permalink

    There are also other lacks

    Reply
  • Tugis
    12.09.2010 at 19:37
    Permalink

    In my opinion the theme is rather interesting. I suggest you it to discuss here or in PM.

    Reply

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